VERVE.TENTE
Estudos e Reflexões FLÁVIO MELLO

O HOMEM E O SEU CONHECIMENTO DE MUNDO

Category: By Flávio Mello

Resenha
(Breve estudo sobre o conhecimento)



“Tantum possumus quantum scimus”
A medida do nosso poder é o nosso conhecimento.


Bacon

...


O homem sempre se assombrou ao desvendar a si próprio e ao descobrir o mundo que o cerca, de maneira direta ou indireta, como ao descobrir o fogo, tê-lo como meio de defesa ou de conforto, ou ao se deparar com as sombras nos interiores das cavernas e, admirar assim, as imagens advindas da exterioridade, pode-se ver em suas marcas, como na arte rupestre, deixadas em cavernas em diferentes pontos do mundo, a “evolução” de uma linguagem e de um poder intelectual que foi se superando na medida em que adquiriam mais experiência e conhecimento de mundo.


O filósofo inglês John Locke[1], considerado o pai do empirismo, com sua postura claramente racionalista, afirma: que o “conhecimento verdadeiro” e assim, universalmente válido, é aquele que abrolha a partir da percepção pelos sentidos. De tal modo, para essa corrente filosofia, quando o homem nasce sua mente é vazia de qualquer conhecimento, e é através dos sentidos e de sua percepção de mundo que vai adquirindo e enriquecendo seu conhecimento. Ao mudar o statu quo, essa idéia é apenas uma forma de ilustrar a evolução da mentalidade humana. Sabemos, que ao nascer já adquirimos fatores sensoriais, e tais fatores contribuem aos primeiro entendimento do mundo ao qual faremos parte.


O homem ao se deparar com a natureza percebe sua grandeza, e assim, o quanto pode desfrutar-se dela, no primeiro momento ele é submisso a essa grandeza tida como “absoluta” e o tempo e a experimentação lhe dão o domínio dessa força, e é nesse momento que o homem toma o controle das coisas, e passa a exercer sua postura de “ser superior”.

O homem então conhece Deus, ou como disse Ferreira Gullar o homem cria sua maior invenção o Deus, e é sobre ele que desenvolve seu conhecimento, voltando a ter a submissão, da natureza ao Ser supremo, pois uma das fraquezas humanas é o vazio existencial, neste momento a preocupação central do homem, isso na Idade Média, é estabilizar ou harmonizar a Razão e a Fé, neste período a filosofia passa a ser uma serva da teologia, pois a Igreja sofre com as diferentes culturas e visões de mundo que surgem com os domínios da igreja: muçulmanos e as invasões Bárbaras. Por isso, no momento em que a Filosofia começa a afirmar sua autonomia, ela é considerada uma ameaça à fé por apresentar interpretações alternativas da realidade (GILES, Introdução à Filosofia, 54) e deve ser contida.

De qualquer maneira o homem necessita da Luz, luz essa que pode ser advinda da chama de uma tocha, com o fogo provido por um raio em uma tempestade, ou a luz divina, luz da revelação, sendo assim, tais conhecimentos sempre terão suas bases na dependência de um “ser superior” ou de uma “força” que vá preencher suas necessidades, ou por ironia a sua Tabula Rasa.

Podemos perceber que as bases desses conceitos sempre foram o senso comum, ou aquilo que adquiro com o fator sensorial, não havendo assim espaço para a critica, mas apenas o encontro com a trilogia Fé-Medo-Esperança. O homem necessita fazer-se ouvir, busca desenvolver suas teorias e técnicas e com base em seus estudos e pesquisas provar o que supões da existência, isso margeado pelo mundo, pela fé e pela ciência, com o conhecimento cientifico busca embasamento para provar o que pensa. Esse conhecimento vai ultrapassar o método empírico, se desenvolve além dos prodígios, suas causas e suas leis. Aristóteles[2], afirma que o conhecimento só se dá de maneira absoluta quando sabemos qual a causa que produziu o fenômeno e o motivo, assim o homem passa a pesquisar, experimentar e desenvolver teorias que provem um determinado objeto de estudo, não se firma em hipóteses para isso, mas sim na certeza advinda do estudo e da pesquisa.


NOTAS

[1] John LOCKE (1632 – 1704): Nasceu em Wrington, Inglaterra. Estudou em Oxford e formou-se em Medicina. Foi perseguido pelos Stuarts e exilou-se primeiro na França, onde pôde conhecer as reflexões de Descartes, e depois na Holanda. Por volta de 1671 costumava discutir sobre os princípios da moral e sobre os fundamentos da religião revelada. Insatisfeito com todas as respostas resolveu estudar “o mecanismo da nossa mente, suas capacidades, seus limites”, isto é, como a nossa mente é capaz de chegar ao conhecimento, como forma as idéias. Entre suas obras são citadas: Ensaio sobre o entendimento humano, Tratado do Governo Civil e Cartas sobre a tolerância. O estudo do seu pensamento enfatiza a questão do conhecimento e a questão do governo.

[2] ARISTÓTELES (384-322): Filho de um médico da corte da Macedônia, Aristóteles nasceu em Estagira[2], pequena cidade da Trácia (Macedônia)[2], ao norte da Grécia. Estudou em Atenas, onde foi discípulo de Platão na Academia. Tornou-se educador de Alexandre Magno, filho de Filipe, rei da Macedônia.

BIBLIOGRAFIA

HUISMAN, D. e VERGEZ, A. – História dos Filósofos ilustrada pelos textos. 5ª edição. Rio: Liv. Freitas Bastos, 1982

SAVIANI, D – Educação: do senso comum à consciência filosófica. S. Paulo: Cortez



 

FIANDO LINHAS AS ESCURAS

Category: By Flávio Mello

Bom, estou ouvindo um CD chamado Fiandeiras do Pantanal - Tetê Espíndola de 2002, na verdade ouço um CD com poemas musicados e cantados por Tête e recitados por Raquel Naveira, e é sobre ela de quem vou falar hoje.

Estou fazendo um curso de pós-graduação e fui honrado com algumas aulas dessa poetiza ímpar que fez questão de nos anestesiar com suas poesias ao longo do curso ministrado por ela, curso no qual nos fez produzir interminavelmente, que gerou certo desconforto por parte de alguns improdutivos..., o que não vem ao caso, na aula que tivemos hoje (04/10/2008) Naveira nos deliciou com suas leituras e com um dos poemas cantados por Tête do disco que já citei, ficamos com aquela sensação de... num sei de que... mas ficamos, bom pelo menos eu fiquei, ao chegar em casa corri ao computador e fiz como de costume minhas buscas, queria encontrar o CD de Naverira e Tête, e assim... depois de pouco trabalho achei-o.

E é ele que agora faz fundo para essa pequena e despretensiosa crônica.

Todos já sabem o meu apreço por música, já falei nesse espaço em outra ocasião, claro que falei do gênero que muito aprecio, mas não deixo de ter os ouvidos abertos, o coração em chama e a mente ligada.

Após conseguir o tal almejado CD dei busca em outros arquivos sobre minha tão poética professora, para minha surpresa achei o seguinte comentário feito por um monstro, e infelizmente falecido, Deus sabe escolher os seus, Artur da Távola, que diz: Como é possível produzir tanto e tão bem... Ensine-me o segredo. O Arado e a Estrela é um livro de ensaios ou crônicas...Importa que ótimas. Prefiro lê-lo como crônica. Assim o gênero ganha mais uma cultora. Parabéns.

Não vou continuar expondo aqui, outros comentários, creio que o de Távola sintetize o meu desejo frustrado de, tentar, dizer algo sobre essa incrível mulher, não vou expor o comentário de Affonso Romano de Sant’anna, como também não vou expor o de Antonio Houaiss, os nomes já bastam.

A vida nos revela em seu tecer, em sua linha da vida, assim como a fiandeira, como a aranha ou os fios de cabelos, posso até mesmo citar de forma orgânica os tentáculos ígneos das águas-vivas, que a poesia é o alimento da alma, a poesia nos faz sorver instantes de ternura oferecidos por colibris feitos de luz, é a poesia o estar e o ser das coisas, e os poetas, ah... os doudos poetas, colibris feito de luz, são as portas escancaradas para o coração do lirismo e da verdadeira alma humana.

Deixo um poema dessa incrível mulher e poetiza, espero que o coração de vocês berre como berrou o meu nesse ano,


CABELO


Estou triste,
Cortei o cabelo.
Não sou mais adolescente
De tranças
E olhos lânguidos.
Não sou mais moça,
Balançando a crina,
Como égua musculosa
Na colina.
Não sou mais princesa,
Usando tiaras,
Arrastando a coma
Como se tivesse na cabeça
A cauda de um cometa.
Adeus, cabelame!
Derrame de seiva sobre meus ombros,
Véu natural
Com que penetrava câmaras ardentes.
Por que cortei o cabelo?
Por que não o mantive longo,
Mesmo branco e seco,
Preso na nuca
Por marfim e pentes?


RAQUEL NAVEIRA


SOBRE A AUTORA


Nasceu em Campo Grande, em 23 de setembro de 1957.
Profissão: Professora universitária.Atividades culturais:Produtora e apresentadora de programa literário semanal na TV UCDB.Membro titular do PEN Clube do Brasil (RJ), eleita no dia 14 de janeiro de 2000.


Obras publicadas:


Via Sacra – 1989
Fonte Luminosa – 1990
Nunca-Te-Vi – 1991
Fiandeira – 1992
Guerra Entre Irmãos – 1993
Sob os Cedros do Senhor – 1994
Canção dos Mistérios – 1994
Abadia – 1995
Mulher Samaritana – 1996
Maria Madalena – 1996
Caraguatá – 1996
Pele de Jambo – 1996
O Arado e a Estrela – 1997
Rute e a Sogra Noemi – 1997
Intimidades Transvistas – 1997
Casa de Tecla – 1998
Senhora – 1999
Stella Maia e Outros Poemas – 2001
Xilogravuras – 2001
Maria Egipcíaca – 2002
Casa e Castelo – 2002
Tecelã de tramas - ensaios sobre interdisciplinaridade - 2005


Outras informações:


O livro Senhora recebeu o prêmio Jorge de Lima-Brasil 500 anos, concedido pela Academia Carioca de Letras e pela UBE/RJ - novembro de 2000;
2º lugar no prêmio Oscar Mendes, categoria ensaio, com o livro Maria Egipicíaca;
Apresentação do livro de fotos, do fotógrafo Fábio Colombine, intitulado “Pantanal – cores e sentimentos”;
Os livros “Abadia” (1996) e “Casa de Tecla” (1998) foram indicados ao Prêmio Jabuti de Poesia da CBL.
Sócia-correspondente da Academia Mineira de Letras.


SITES (visitados e visite):


 

TRÊS CÂNONES OU TRÊS COLUNAS HUMANAS

Category: By Flávio Mello


Cânone (Ficção) conjunto de obras que são

consideradas "genuínas", "oficiais" dentro

de um determinado universo fictício.


Criar aqui uma lista de cânones seria de minha parte totalmente irresponsável, uma vez que tal lista é de certa forma subjetiva; também não vou criar uma dezena de possibilidades onde o leitor possa deduzir se há cânones ou não nos livros e autores que por fim eu acabar citando. O que vou fazer na verdade é trazer três livros, ou três autores, que julgo importantes serem lidos, obras que são relevantes para a formação parcial de uma mentalidade produtora e criativa, de caráter, de preocupação humana e social.


Acredito realmente que cada escritor traga em seu cerne uma lista de autores que o ajudaram a se formar como produtores de sonhos, de dominadores da palavra, mesmo sendo ela um touro feito de chamas, eu em certo ponto, tenho dentro de mim três autores que julgo de extrema importância para a formação de um caráter realmente humano, de aprofundamento ao ser, também de reflexão e auto-avaliação. Assim, descrevê-los-ei de forma cronológica, sem apegar-me a importância ou escola literária, primeiro – A Metamorfose de Franz Kafka, livro que julgo ser de uma racionalidade quase que atípica, mesmo se tratando de um livro que tem como personagem principal um homem-verme, ou barata conforme a tradução e o gosto popular, esse livro revela em sua entranha a que ponto um homem, ou ser humano, pode chegar à introspecção, isolamento, solidão, desvalorização moral, achincalhamento e não representar impacto persuasivo em sua vida. A metáfora homem/verme (leia-se barata), ou verme/homem, é nada mais que o se diminuir perante o todo.


O segundo livro é o Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago, que traz em si as mesmas características de A Metamorfose, entretanto, no bojo coletivo, de tal maneira que o homem/verme passa a ser grupal e todos voltam aoseuestados primitivos, isso em sua totalidade e essência. Guiados pelos olhos de uma mulher, que pode ser representada como a esperança ou mãe de todos os homens, pois é ela que aprende a olhar todos com olhos complacentes e ternos, sem o julgamento visceral que o ser humano traz consigo, é ela quem socorre e adverte dos maus, que perdoa o marido que prova de outra carne aos seus olhos, revelando seu estado animal, é ela quem revela o que realmente somos ao nos lavar nas águas mornas da última chuva.


Por último, e não menos importante, temos o livro de contos de Dalton Trevisan, Cemitério de Elefantes, podemos encontrar nessa obra do Vampiro de Curitiba personagens que vivem à margem da sociedade, que revelam a fragilidade e a inocência humana, o próprio estado de “ser humano”, com suas fraquezas, arrependimentos, duelos, medos, complexos e necessidades tão afloradas no cotidiano de um mundo cada vez mais solitário e hedônico. Um livro recheado de contos curtos, porém profundamente preocupados em revelar o que de fato somos, ou o que de fato pensamos ser.


Podemos perceber que a “lista” apresentada não nos revela cânones consagrados pela literatura mundial, ou leitores mundiais, como Dom Quixote, A Divina Comédia, Guerra e Paz, Eneida, Odisséia e tantos outros que já sabemos de que se trata antes mesmo de os lermos. Essa tríade apresentada é afortunada de tal modo que ao ser lida pode revelar aos olhos “cegos”, ou as pessoas “perdidas” ou “esquecidas” que há muito mais em nós do que podemos imaginar, sem parodiar Shakespeare, ou Machado de Assis, cânones não citados aqui. Esses livros podem ser lidos como “manuais de reparos humanos”, pois através deles podemos nos identificar facilmente com um Gregor Samsa, uma Rapariga de óculos escuros, ou com o corpo sem vida de Dario. Cada um pode formar suas presunções, lendo ou imaginado o que aqui foi dito.


foto: Jean-Louis Barrault in Kafka's, 1946
 

JANELA DA LIBERDADE E OUTRAS HISTÓRIAS

Category: By Flávio Mello


Hildebrando Pafundi

Santo André, dia 28 de Setembro de 2008, 16h...

Fui à livraria Nobel onde com muita honra encontrei um senhor (todo poesia) sentado, quieto em uma confortável poltrona preta, cercado por inúmeros livros, mas livros que se tornaram apenas decoração, pois os mais importantes estavam ao seu lado, os de sua autoria.

Conheci Hildebrando Pafundi (http://www.cliqueabc.com.br/), por acaso mesmo, em um livro, seleta, que tive o prazer de fazer parte ao seu lado, talvez só isso já tenha valido a pena, uma vez que... bom... o importante é que conheci-o por lá, Casa das Rosas, Seletas de autores, todos os escritores que assinaram seus respectivos contos em meu livro, fiz questão de enviar um e-mail a medida que ia lendo o livro, Hildebrando foi o primeiro, é a tal química que dizem, adorei o seu texto Janela da Liberdade (Entrelinha, 2007, pg. 199 e 200 – Livraria Cultura), tentei de modo singelo dizer o que havia sentido ao ler o belo conto que nos leva a infância perdida... uma infância que nós adultos fazemos questão de esquecer por pura ignorância, mas toda aquela poesia, nossa... foi incrível, fizemos alguns contatos depois disso, e por minha parte uma grande admiração foi se formando, senti recíproca, mas como sou um daqueles pessimistas... fazer o que... formei-me todo em “Simbolismo” e “Mal do Século”, aí e mais aís... (risos), fizemos uma tênue amizade, e cyberexistimos.

Tive a oportunidade de colaborar de maneira bem sutil com sua mais nova publicação (PAFUNDI, Hildebrando, A janela da liberdade e outras histórias; ilustrações de Alex Alves de Souza. Guarulhos, SP; Editora Espaço Idea, 2008.), um livro lindo, colorido em desenhos e linhas que delineiam toda a experiência e poesia de um grande escritor, não preciso fazer propaganda, não é minha intenção, uma vez que se trata de um escritor de maestria no oficio... penso que minhas palavras não influenciariam nas vendas.

Hoje foi um dia muito bom, conheci pessoas interessantes como os organizadores da Revista Cigarra Jurema e Zhô Bertholini – figuras magníficas em inteligência e simplicidade. Claro em se tratando de Pafundi seus amigos, obviamente seriam pessoas impares.

Bom, escreverei mais sobre o livro logo... hoje apenas algumas palavras de puro prazer e entusiasmo. Por isso paro por aqui, antes que esse texto fique chato.

Boa noite (22h)
foto: Tirado por Flávio Mello no evento
 

Como usar diferentes midias em sala de aula

Category: By Flávio Mello


Créditos:


Video/aula feita pelo Aluno Felipe Manoel dos Santos (2º Ano EM) do Colégio Santo André, a pedido e orientação do Professor Flávio Mello da disciplina de Arte, Língua e Produção de Textos, com contribuições valiosas e diretas de Ricardo Guimarães de Matemática e Rosimeire Mello de Biologia e Artes para apresentação na IV Feira Cultural Colesan.

fotos do evento:

maquete de uma cidade do sertão mineiro, reproduzão em areia.

painel em madeira e tinta plástica (1,5m x 3m), feita pelo Professor Flávio Mello, Guimarães Rosa e ao fundo mapa de sua viagem pelo sertão brasileiro.

 

O TEMPO, A ARTE – E BURGO DE AREIA

Category: By Flávio Mello

Livre associação da revista continuum

Primeira parte


“O homem de ontem não é o homem de hoje.”

Jorge Luis Borges

“presente das coisas passadas,
presente das presentes,
presentes das futuras.”

Santo Agostinho




Pois bem, caminhando por um dos milhares de corredores de uma colossal biblioteca, que em seu cerne agrupa a iluminação deixada por uma infinidade de pensadores, não importando seus campos – ciência, arte, arquitetura, filosofia, sociologia, literatura, astrologia e um sem número de áreas, dependendo do ângulo que se vê, caminhando por esse corredor, dobrando suas esquinas, percorrendo suas paredes compostas por prateleiras forradas de tomos de diferentes aspectos, formas, espessuras, materiais que vão desde o mais fino e rústico couro e do pergaminho ao papel mais rico e ornado com partículas ricas e singulares, há uma concentração de tempos que ferem como punhais com suas palavras a película delicada do tempo, assim como uma tempestade de areia que chega de surpresa envolvendo a tudo e a todos, essa concentração de tempo traz em seu bojo, isso na disposição desses livros nas prateleiras, visinhos incabíveis como Homero, Dante, Borges, Saramago e mesmo Machado de Assis, autores, pensadores de um ontem presente, de um presente continuo e de um futuro palpável, um futuro vivo e físico, de pé diante de seus olhos, como isso? Como é possível as palavras serem fios amolados há perfurar o tempo, fácil dedução e compreensão, é a carne que apodrece é a matéria que finda... o espírito desses escritores ganha a imortalidade no papel rasgado a bico de pena, lavado de nanquim ou perfurado por tipos e máquinas de escrever.




Com isso é fácil visualizar em um lençol de luz uma cena inusitada como o minotauro atravessar as paredes grossas de livros e percorrer os corredores dessa gigantesca biblioteca como em seu labirinto, ou quem sabe ver Pessoa e seus eus perambulando as paginas pajeando as palavras como ovelhas e rindo de gigantes que se espremem nas paredes das brochuras.

O que isso significa realmente (se é que é possível falar de realidade dentro da geografia da literatura), darei um exemplo, dentro da infinitude que há no universo ficcional,




“- Nesse caso – disse-lhe resolutadamente –, o senhor se chama Jorge Luis Borges. Eu também sou Jorge Luis Borges. Estamos em 1969, na cidade de Cambridge.
- Não – respondeu-me com minha própria voz um pouco distante.
Depois de um tempo, insistiu:
- Eu estou em Genebra, em um banco, a alguns passos do Ródano. O estranho é que nos parecemos, mas o senhor é muito mais velho, com cabeça grisalha. (BORGES, 2001, p. 8)”





muito bem, eis um exemplo grandioso da geografia da literatura, esse dialogo que aparentemente é um diálogo normal, visto assim despregado do contexto original “apresenta” dois indivíduos a trocar informações em pontos diferentes e sentados em um banco de praça, contudo não há de fato duas pessoas, trata-se do conto O Outro de Borges, onde ele encontra ele mesmo em outro lugar em outra data sentados em um banco onde há um surreal encontro e uma surreal troca de espantos, o mesmo espanto que o leitor sente ao perceber esse “fato obscuro” da ficção borgiana.


Para finalizarmos essa visão onírica da geografia literária devemos compreender que o tempo é maleável, como uma ponte feita de poeira, ou como uma tempestade de areia que pode soterrar uma cidade e deixá-la no esquecimento. O que desejamos trazer de dentro dessa tempestade de areia, feita de palavras, é a ruptura que o tempo sofre quando um leitor ou um escritor em uma época especifica abre um livro “clássico”, para podermos compreender melhor tal linguagem, e lê em voz alta um verso, uma estrofe ou um parágrafo, quando Machado de Assim revive Shakespeare em seu conto, atravessa as paredes grossas da realidade junto às areias que formam a geografia da literatura e do tempo.




A MORTE DE CRONOS




Segunda parte





A tal passagem de que falamos, aquela que fere o tempo, que transpassa a linearidade comum das coisas, também se faz presente ao nos depararmos com outro tipo de arte, já que falamos na literatura, as artes plásticas, por exemplo, pode servir de segundo plano ao que narraremos agora, pois bem, eis que nos deparemos com o Portal do Inferno[1] de Rodin, esculpido em sagrada inspiração sobre a Divina Comédia de Dante, se nos mantivermos parados diante dessa magnífica peça, podemos perceber que tal portal hoje exposto como simples artefato de arte, pictoricamente pode nos servir de uma passagem para um universo parecido sobre o qual falamos a pouco, isto é, ao passarmos psicologicamente tal portal nos veremos perambulando ao lado de Dante e Virgilio nos caminho pecaminosos de um inferno ou de um purgatório rumo a ascensão e ao encontro de Beatriz.

Ao falarmos em ascensão podemos ver o tempo dentro da concha sacra, dos ícones de pinturas chapadas que traziam em seu cerne a mais profunda elevação espiritual, com fundos dourados e auras grandiosas que traziam nas entidades representadas um teor divinizado, ora vejamos a idéia do artista sacro como a procura pela estética arcaica, pela forma transportada de forma que o espectador acredite que ali esteja realmente o santo, o Cristo etc.




Quando Monet pinta sua serie de telas representando a passagem de tempo sobre a Catedral de Rouen ele, em uma linguagem primária de fotografia, revela a morte do tempo nas cores que vão se tornando mais escuras e nas pinceladas mais tênues e calmas que só o decorrer do período pode oferecer, isto é, do amanhecer ao anoitecer o tempo envelhece assim como a matéria que ele desgasta e esconde com suas sombras.



De forma hermética podemos deduzir que o furo no espaço/tempo/realidade onde é possível ultrapassarmos os limites e nos transportarmos para um mundo “virtual”, através de portais, como a internet, por exemplo, ou mesmo o portal do inferno de Rodin, e nesses universos usarmos a realidade no irreal/temporal – estando próximo o bastante do mesmo sentimento hedônico, do mesmo consumismo, em busca de um espaço cobiçado em nosso mundo real.


[1] A Porta do Inferno. Escultura de Auguste Rodin (séculos XIX-XX). Museu Rodin, Paris. Em gesso. 576 x 380 x 130 cm.





texto continua...
 

O BLOG VERVETENTES

Category: By Flávio Mello


Este Blog tem como intuito inicial ser um trabalho em desenvolvimento contínuo, um trabalho desenvolvido pelos alunos de Pós-graduação da Uni nove, com orientação, e méritos, do Professor
Enio Moraes Jr(1), jornalista, professor universitário, doutorando em Ciências da Comunicação.

Para podermos entender o universo do meu blog, primeiramente devemos compreender o seu título, assim: verve: a inspiração poética dos autores somada a tentes, neologismo retirado do título do curso Praticas e Vertentes. O universo que migro, ou que percorro é baseado na literatura, arte de modo geral, com grande apreço à literatura africana, como podemos ver nas imagens de apresentação, e que migrarei em meu trabalho de conclusão de curso e futuros estudos.

A idéia de ter um blog como “caderno” de estudos é para mim muito interessante, pois não visualizava assim tal ferramenta, mesmo tendo um outro blog onde desenvolvo meu trabalho literário e intelectual, contudo esse blog tem um intuito diferente, refletir e analisar temas voltados a educação e ao curso propriamente dito, sem esquecer da idéia de utilizá-lo em meu trabalho como professor, ou até mesmo em minha palestras ao logo do país.

Gostaria de deixar claro aos amigos visitantes, que não sou, e não somos, detentores da certeza, tenho isso como máxima, caso queiram ressaltar, alertar ou comentar estou a disposição para qualquer tipo de discussão sadia e trocas de experiências.



Flávio Mello
Escritor e Professor